segunda-feira, 21 de junho de 2010

Educação carcerária


A criança de hoje não foi transportada da década de 1950. Mais do que modificar suas preferências, a plataforma digital da era em que nasceu influencia seu modo de aprendizado. Se por um lado seus pais frequentaram os chamados grupos escolares empoeirados pelo giz, esse modelo não mais os atrai. Se também foram eficazes métodos como a palmatória, os ditados, as chamadas-orais e as "decorebas", hoje caíram em desuso.

E embora o jovem das periferias não tenha acesso ao mundo digital, deseja fazer parte deste. O aluno da escola pública, fadado a sentar-se em cadeiras mancas e a estudar em livros cronologicamente estáticos, almeja ter acesso a uma sala com projetores. Deseja ver filmes que exemplifiquem o conteúdo das aulas de História, entender a matemática através da informática e aprender o idioma mais falado no mundo através de músicas em um mp3 player.

Em contrapartida está sua essência social. O Estado brasileiro, pouco afeito a inovações no campo educacional, agrava o quadro. Busca no estereótipo do jovem infrator, o tratamento para o estudante do ensino público. Não bastasse o abismo social que o separa do estudante da rede privada, ainda é obrigado a conviver com situações constrangedoras. São frequentes os palavrões, a pouca receptividade de funcionários mal remunerados e o convívio com a crença da violência em troca de um pouco de respeito. O que se ganha? A certeza de que que para se conseguir algo é necessário lançar mão de meios hostis. Assegura-se, em última instância, a formação de um cidadão certo da impunidade.

Mas, voltando ao mundo digital, não é só solução. Pornografia, incitação ao sexo e à violência formam o seu lado B. Contudo, é possível um meio-termo. Inconcebível mesmo é a ideia de um Estado censor no setor (carcerário? )educacional. Parafraseando alguns políticos "Mas como colocar tecnologia nas escolas públicas? A curto prazo tudo vai ser destruído!" Também pudera. Com um pouco de ração (merenda) e alguns banhos de sol (recreios), nem é preciso estar em um zoológico para se criar bichos.

E de volta à realidade, damos de cara com a única coisa automática que o aluno
do ensino público tem em relação a seu colega da rede privada: a aprovação. E a partir daí quaisquer atitudes serão inúteis. É melhor mesmo trancafiar alunos em salas (ou celas?) com grades e colocar um bedel portando um cacetete no lugar do apagador paga vigiar.