domingo, 17 de outubro de 2010

Vazio presidencial





Hoje assisti à Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro. Confesso, um pouco receosa. Mas o filme superou minhas
expectativas. E isso não tem a ver somente com a qualidade da produção. Tem a ver com a ousadia de José Padilha, seu diretor. Nada de carnificina ou a engenharia do tráfico. Inesperado, o roteiro traz denúncia social. Joga no ventilador, pois, agora Nacimento está do outro lado do balcão.

E Tropa de Elite 2 vem à calhar com as idiossincrasias (sim, eu gosto dessa palavra) do momento que o Brasil vive. É o raio-x da inócua politicagem da vez. Da (justa) página em branco de uma revista sensacionalista ao final do primeiro turno das eleições presidenciais.

Importante dizer que Nascimento é vítima de suas convicções, tal como o eleitor. Acredita na função da polícia carioca. Mas se vê encurralado pelo caveirão da política quando descobre o ninho de cobras a seu redor. A diferença é que o eleitor percebe o ninho somente quando precisa usar soro antiofídico.

Mas, os tempos de hoje, tal como o filme de Padilha, denunciam algo. A ideia de que não importa quem chegue a se candidatar ao poder, mas sim quem cumpre a missão de angariar mais votos."E missão dada companheiro, é missão cumprida".

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Educação carcerária


A criança de hoje não foi transportada da década de 1950. Mais do que modificar suas preferências, a plataforma digital da era em que nasceu influencia seu modo de aprendizado. Se por um lado seus pais frequentaram os chamados grupos escolares empoeirados pelo giz, esse modelo não mais os atrai. Se também foram eficazes métodos como a palmatória, os ditados, as chamadas-orais e as "decorebas", hoje caíram em desuso.

E embora o jovem das periferias não tenha acesso ao mundo digital, deseja fazer parte deste. O aluno da escola pública, fadado a sentar-se em cadeiras mancas e a estudar em livros cronologicamente estáticos, almeja ter acesso a uma sala com projetores. Deseja ver filmes que exemplifiquem o conteúdo das aulas de História, entender a matemática através da informática e aprender o idioma mais falado no mundo através de músicas em um mp3 player.

Em contrapartida está sua essência social. O Estado brasileiro, pouco afeito a inovações no campo educacional, agrava o quadro. Busca no estereótipo do jovem infrator, o tratamento para o estudante do ensino público. Não bastasse o abismo social que o separa do estudante da rede privada, ainda é obrigado a conviver com situações constrangedoras. São frequentes os palavrões, a pouca receptividade de funcionários mal remunerados e o convívio com a crença da violência em troca de um pouco de respeito. O que se ganha? A certeza de que que para se conseguir algo é necessário lançar mão de meios hostis. Assegura-se, em última instância, a formação de um cidadão certo da impunidade.

Mas, voltando ao mundo digital, não é só solução. Pornografia, incitação ao sexo e à violência formam o seu lado B. Contudo, é possível um meio-termo. Inconcebível mesmo é a ideia de um Estado censor no setor (carcerário? )educacional. Parafraseando alguns políticos "Mas como colocar tecnologia nas escolas públicas? A curto prazo tudo vai ser destruído!" Também pudera. Com um pouco de ração (merenda) e alguns banhos de sol (recreios), nem é preciso estar em um zoológico para se criar bichos.

E de volta à realidade, damos de cara com a única coisa automática que o aluno
do ensino público tem em relação a seu colega da rede privada: a aprovação. E a partir daí quaisquer atitudes serão inúteis. É melhor mesmo trancafiar alunos em salas (ou celas?) com grades e colocar um bedel portando um cacetete no lugar do apagador paga vigiar.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A foice, a folha e a luta de classes

Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima ou simplesmente Marina Silva, 51, decidiu sair do muro. Senadora pelo Estado do Acre, a mulher dos 100 mil dólares em prêmios por sua luta ambiental decidiu assumir a verdadeira identidade política. No último dia 19, Marina Silva anunciou sua desfiliação ao Partido dos Trabalhadores (PT) que a abrigou há mais de trinta anos, quando abandonou a casa dos pais e a vida no seringal. Sua nova casa é agora, o Partido Verde.

Mas, sua decisão teve um peso.Apesar de contar com o apoio popular em virtude da origem humilde, Marina deve aguardar um 2010 recheado de embates com a "ex-companheira" de legenda, Dilma Roussef. Isso porque mais que bandeira política, Dilma e Marina compartilharam o ideal socialista. Mesmo filha de uma classe média loira de olhos azuis, após a morte do pai, Dilma trocou o piano e o ballet pela foice e as canções operárias.

Sem dúvida, a migração de Marina deixou mais que saudades de alguns companheiros.E é neste contexto que o ano vidouro se avizinha, trazendo consigo além da costumeira disputa eleitoral, choques pessoais. Trazendo à tona, em suma, a velha luta de classes, há muito proposta por um tal Karl Marx.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Um show de aula


Segundo estudo publicado pelos meios de comunicação na última segunda-feira (24), a solução para as "tranquilas" salas de aula deste país, seria o uso do microfone pelos professores. A orientação é da coordenadora do estudo, Mara Behlau. De acordo com ela, é necessário adotar medidas como esta para remediar o quadro atual, tanto na esfera pública, quanto privada.

Mas, alto lá!

Sérgio Buarque saberia que isso é uma falácia. Já não é de hoje que o "típico brasileiro" confunde os dois lados da moeda. As medidas adotadas em um, não necessariamente se adequam ao outro. Mesmo porque, o número de alunos em sala e as condições do ambiente (só para citar dois fatores), são indiscutivelmente discrepantes de um para outro. Isso é um ponto.

Outro ponto é o fato de que, essa conclusão comprova a banalização do ensino atual ,uma vez que docentes aceitam a derrota na batalha contra a indisciplina.

Além disso, será necessária a longo prazo,a potencialização do volume do tal aparato para a voz. Assim, não será difícil confundir uma sala de aula com uma arena de shows. Shows de choro, tristeza e lamentação.

Tsc, tsc...

domingo, 23 de agosto de 2009

Um muro que une

Há pouco mais de 4 décadas, erguia-se um muro. Um muro símbolo do preconceito e da intolerância para com as diferenças. O mundo estava claramente bipolarizado e o que menos precisávamos era de uma guerra. Mesmo Fria, ela veio. Com sua queda depois de quase 30 anos e com a chamada globalização, algo fica claro: matou-se muito, por pouco. Condenou-se muitos inocentes. Em suma, escolheu-se o singular em detrimento do plural. E pagamos por isso até hoje.

Luz negra

Mas, a humanidade enxergou uma luz no fim do túnel. Usain Bolt, um atleta jamaicano de apenas 22 anos, fez abrir os olhos de muitos que estavam nas trevas. Presenteado com um pedaço do famoso muro decorado com um grafite de si mesmo , fez justiça sem levantar um dedo. Em vez de massas, movimentou músculos. No lugar da violência, usou força e técnica.

Porém, não há motivo para comemorar. Na mesma cerimônia que homenageou Bolt, sua mãe foi discriminada. Sem identificação, por pouco não se tornou vítima da mídia e polícia locais.
O muro realmente caiu. Contudo, a poeira que levantou deixou cheiro de sangue e o sabor amargo do preconceito na boca de quem convive com ele diariamente.

domingo, 2 de agosto de 2009

O filho é seu, caro companheiro


Nos últimos tempos o "companheiro" Sarney teve sua conduta política reprovada por grande parte da população "deste país". Envolvido em denúncias de atos secretos e nepotismo, o atual presidente da mais alta corte legislativa perdeu-se na prática do coronelismo.

Prática esta que, aliás, disseminou-se em territórios paternalistas do Brasil do Bolsa-Família. Brasil que, por sua vez, é pano de fundo da vida do ex-companheiro operário e alvo da cultura de mando da família Sarney até os dias que se transcorrem. O mesmo Brasil pensa ser dois. E ambos tem fome ( que não é Zero) de destruir suas respectivas oposições.

O início e o fim

Os dois Brasis até já tiveram bons momentos. Ajudaram a cessar a impunidade e conduziram um processo de redemocratização. Sim, mas as crises chegam. E agora está claro: cada um com seus problemas. Debaixo de tetos diferentes, o antigo enlace comprova o ditado: quem pariu que se responsabilize.

domingo, 28 de junho de 2009

Receita para o bom jornalismo



Apesar do atraso cronológico, deixo aqui meu depoimento sobre o exercício "profissional" da atividade jornalística brasileira atual. Mas antes, vamos rever os fatos. Com 8 votos que favoreciam a tese da mais alta corte nacional contra 1 solitário opositor e 3 abstenções, decidiu-se que jornalismo se assemelha à gastronomia, onde "o melhor cozinheiro nem sempre é um grande chef".

Isso mesmo.Venceu quem acha que grau de instrução não é parâmetro para a concessão de liberdade de expressão. Venceu quem não consegue sequer avaliar a realidade à sua volta .Caso contrário, saberia o quão ridículo é falar em danos a este direito democrático em plena disseminação das novas tecnologias da comunicação. Sem dúvida, uma tese altamente contestável.

Direto ao ponto (não do bolo)

Sem mais demora em torno desta dicussão, uma vez que acredito ter utilizado toda a sorte de argumentos de ordem acadêmica, pessoal e histórica possíveis, vou direto ao ponto. E na prática? Será que algum deputado/ senador ( envolvido ou não em sessão secreta no Senado Federal), avaliou a situação com uma ótica global? Será que a nova situação do jornalismo não é a oportunidade perfeita para o empresariado dar a forma que desejar a esta massa de profissionais ( classe em que me incluo)?

O jornalismo brasileiro está sendo encaminhado para uma verdade nua e crua (não por falta de cozimento): as relações profissionais ficarão cada vez mais apimentadas, com uma chefia menos doce e com salários que nem se aproximam do salgado preço do custo de vida nas principais capitais do Brasil.